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sábado, 28 de maio de 2011

Emprego no Japão: Hora de recomeçar para os dekasseguis

Na década passada, os dekasseguis mandavam do Japão para o Brasil, anualmente, perto de US$ 2 bilhões, segundo estimativas oficiais. Em 2002, mandaram US$ 2,5 bilhões. Eram mais de 300 mil brasileiros descendentes de japoneses, que foram trabalhar na terra de seus ancestrais. Em 2008, veio a crise mundial – e a economia japonesa foi seriamente afetada. E, neste ano, a tragédia com o terremoto seguido de tsunami.



Com tudo isso, quem hoje quer ser dekassegui? Muita gente. Entre os que vieram desempregados pela crise, ou fugidos do cataclismo de 11 de março, há muitos planos para o retorno. Afinal, a região destruída, localizada na costa nordeste do Japão, terá de ser reconstruída. E isso vai exigir muita mão de obra.

Essa, no momento, é uma ideia não só falsa, como perigosa. Quem diz são pessoas que, há anos, lidam diretamente com os esses imigrantes. É o caso de Cori Passos, sócio da Shigoto.com, agência que há 12 anos cuida da colocação e viagem de dekasseguis. Ele disse que a reconstrução, em várias regiões, vai demorar. "Muitas cidades ficam na área contaminada pela radiação atômica", avaliou.

Na Associação Brasileira de Dekasseguis (ABD), fundada há 14 anos em Curitiba (PR), o tom é o mesmo. Glória Takemoto Hamasaki, que lida diretamente com os interessados, pede "bom senso" aos que querem voltar agora. "Não há condições atualmente. O governo do Japão está com dificuldade em manter as pessoas, garantir comida e água."

As perspectivas são de que a necessidade de mão de obra aumente a partir do fim do ano. O Conselho para o Planejamento da Reconstrução do Japão previu, nos últimos dias, que o trabalho dure dez anos. Além disso, os postos que eram ocupados pelos 14,5 mil mortos (e número semelhante de desaparecidos) terão que ser preenchidos.

Mas ninguém quer esperar. Cori afirmou que muitos já chegam com o passaporte dizendo 'chega lá eu me viro'. "Mas hoje a situação está difícil", disse. Segundo Glória, eles se queixam de que fazem jornada regular de trabalho, de oito horas, e que a hora extra desapareceu.

Há os que querem mudar de emprego. "Eu digo não, estão ganhando pouco mas é garantido. Dá para pagar o aluguel, que é caro. Um casal paga US$ 700 (cerca de R$ 1,12 mil)." Para quem quer voltar ou quem quer ir, a especialista é taxativa: "Eu não aconselho. É bom cada um ficar no seu canto, é um risco ficar se mexendo nessa hora."

Glória salientou o problema da especialização da mão de obra. "Muitos não têm qualificação; aprenderam o trabalho lá no Japão como peões de linha de montagem de banco de veículo, por exemplo. Vão querer um posto de trabalho e não vão encontrar."

Em último caso, o conselho dela é: "Melhor vir do que ir". Afinal, aqui sempre se pode conseguir emprego com um parente, com ajuda de um amigo. "Lá não tem condições."
E há outro ponto, diz Helena Sanada, do Centro de Formação e Apoio do Trabalhador no Exterior (Ciate). "Depois da crise de 2008, o Japão passou a exigir que o dekassegui saiba falar, ler e escrever, ainda que minimamente, o japonês".

O Ciate é mantido pelo Ministério do Trabalho do Japão. Na década de 1990, quando os dekasseguis começaram a chegar, não sabiam nada sobre os costumes e as leis do país. O centro foi criado para orientar. Por mês, cerca de 150 interessados se inscreviam no curso, para aprender a língua japonesa, entre outros conhecimentos. Agora, a procura caiu a quase zero.

Novo cenário – Cori lembrou que o mercado de trabalho japonês mudou bastante. O setor de alimentação sempre esteve entre os que mais empregam. Mas, com o vazamento de radiação da usina de Fukushima e a contaminação de alimentos, as exportações de seus produtos declinaram.

Os dekasseguis que têm voltado desde a crise global de 2008 chegam com pouco dinheiro, constatou Glória, da ABD. Tradicionalmente, eles vinham depois de conseguir guardar uma boa quantia, muitas vezes suficiente para comprar uma casa. "Agora, eles vão embora insatisfeitos, por não terem alcançado seus objetivos." Isso explica também porque muitos querem retornar.

No caso dos que chegam, a ABD procura orientar sobre as condições atuais do mercado de trabalho brasileiro. Uma das saídas indicadas pela associação é a abertura de um negócio próprio.

Japão assiste à revoada dos estrangeiros
Os estrangeiros que deixaram o Japão, depois da tragédia de 11 de março, estão sendo chamados pelos japoneses de Flyjin – os gaijins (estrangeiros) que voaram (fly). Entre eles estavam, até 8 de abril, 7.472 brasileiros.

Os números são do Departamento de Imigração do Ministério da Justiça. Antes do 11 de março, havia no Japão 254 mil brasileiros. Formavam o terceiro maior contingente de dekasseguis, depois dos chineses e coreanos. Cerca de 185 mil chineses, 106 mil coreanos e quase 40 mil americanos também se foram.

O termo Flyjin está sendo usado informalmente em redes sociais e mensagens na internet. Seria uma reação dos japoneses que se mantiveram nos postos de trabalho, enquanto os estrangeiros fugiam. Entre esses, circula na colônia uma resposta pronta. Eles dizem que, nas demissões de 2008, motivadas pela crise econômica mundial, os japoneses foram poupados. E os estrangeiros, dispensados. E aqueles não reclamaram, como fazem agora.
Fonte: Diário do Comércio por Valdir Sanches
Fotos:
Jaime Oide e Sílvia Zamboni/Folhapress

sábado, 12 de setembro de 2009

Mesmo sem emprego, dekasseguis continuam querendo ir para o Japão

O Estado de S. Paulo

Assunto: Econômia
Título: Na Liberdade, agências resistem à crise
Data: 06/09/2009
Crédito: Andrea Vialli


Mesmo sem emprego, dekasseguis continuam querendo ir para o Japão
No Bairro da Liberdade, região central de São Paulo, existem pelo menos 100 agências de emprego que se encarregam de preparar a viagem dos dekasseguis ao Japão. Muitas já fecharam as portas - antes da crise financeira internacional - eram mais de 250. Elas cuidam de tudo para quem pretende embarcar. Compram as passagens, providenciam vistos e traduções e, mais importante, têm contato direto com as empreiteiras, as empresas de terceirização de mão de obra no Japão que contratam estrangeiros.

Antes da crise, os brasileiros já saíam do País com emprego garantido no Japão. Hoje, no entanto, não é sempre que isso acontece. "Tem muita agência mandando dekassegui para o Japão sem emprego certo. Chegando lá, a pessoa tem de se virar", diz Makoto Date, sócio da Shigoto.com, agência de empregos e viagens especializada em levar dekasseguis para o Japão.

Date diz, no entanto, que desde dezembro não envia pessoas para trabalhar lá, devido à escassez de emprego. Apenas vende passagens para parentes ou amigos de pessoas que já estão lá, sem fazer a intermediação de emprego. "Apesar da crise, a procura por emprego no Japão nunca deixou de existir. Arrisco dizer que até aumentou, porque o país é visto como um refúgio para muitos descendentes", diz, ele próprio um ex-dekassegui, que morou no Japão por dez anos. Antes do agravamento da crise, a agência enviava em torno de 20 brasileiros por mês ao Japão.

A reportagem do Estado localizou várias agências de empregos para dekasseguis nas imediações da Praça da Liberdade, no coração do bairro paulistano. Arredios, muitos proprietários não quiseram dar informações.

A dona de uma agência, que preferiu o anonimato, afirmou que continua mandando brasileiros ao Japão porque existem vagas, ainda que temporárias e de menor remuneração. "A indústria de alimentos continua contratando, mas são empregos que pagam menos. Os brasileiros preferem trabalhar nas fábricas de autopeças e eletrônicos, mas essas são as que estão deixaram de contratar", diz ela.

Salário Menor
Outro reflexo da crise é a queda na remuneração dos trabalhadores estrangeiros. Antes da crise, um trabalhador dekassegui do sexo masculino ganhava em torno de 1.400 ienes, ou cerca de US$ 15 por hora trabalhada. Com a crise, a remuneração caiu a 1.000 ienes.

Cori Passos, sócio de Makoto Date na Shigoto.com, explica que muitos dos dekasseguis que procuram a agência sabem da crise e do desemprego no Japão. "Mas eles ficam sabendo de um ou outro conhecido que conseguiu emprego e resolvem arriscar", diz. A agência até formulou um e-mail padrão que envia aos dekasseguis que estão querendo se aventurar. "No momento, algumas empresas prestadores de serviço tem nos oferecido algumas vagas, porém, por não confiar na idoneidade dos serviços optamos por não recorrer a eles", diz a mensagem padrão.

Passos explica que evita fazer negócios com as chamadas assessorias, empresas que recebem os dekasseguis no Japão e os levam para procurar emprego, porém sem garantias. Muitas agências que continuam levando brasileiros ao Japão recorrem às assessorias e chegam a cobrar R$ 10 mil pela viagem, mesmo sem perspectiva de emprego - valor muito acima do preço da passagem, que custa cerca de R$ 3,2 mil.